Reganho de peso depois da bariátrica: por que acontece e o que fazer

Revisado por Nutricionista Carla FrancoNutricionista Bariátrica · CRN-9 33413
10 min de leitura
Reganho de peso depois da bariátrica: por que acontece
Resposta rápida

Voltar a ganhar parte do peso depois da bariátrica é comum. Numa revisão de 32 estudos, cerca de 1 em cada 6 pessoas recuperou 10% ou mais do peso. As causas envolvem o corpo, os hábitos e as emoções, e o tratamento junta alimentação, atividade física, apoio psicológico e, em alguns casos, remédios ou nova cirurgia.

Os primeiros anos depois da cirurgia costumam ser de conquista: o peso desce, a roupa sobra, os exames melhoram. Até que a balança volta a subir, devagar, e com ela vêm a culpa e a pergunta que mais aparece entre os nossos leitores: "eu estraguei a minha cirurgia?".

Não estragou. O reganho é uma fase que muita gente atravessa, tem explicação e tem tratamento, e quanto antes ele é percebido, mais simples costuma ser. Este guia mostra o que os estudos sabem sobre o assunto, por que o peso volta, como perceber cedo e o que fazer em cada caso.

O que é reganho de peso depois da bariátrica?

Reganho é o aumento do peso depois que a pessoa chega ao peso mais baixo após a cirurgia, o chamado nadir. Não existe uma definição única: os estudos usam medidas diferentes, como quilos, pontos de IMC, porcentagem do peso mais baixo ou porcentagem do peso que tinha sido perdido3.

Num grande estudo com pessoas que fizeram bypass, a medida que melhor se relacionou com a volta de diabetes, colesterol e pressão alta foi a porcentagem do peso perdido que voltou3. Em outras palavras, recuperar 5 kg de 50 kg perdidos é diferente de recuperar 5 kg de 20 kg perdidos.

Reganho é comum? O que os estudos mostram

É comum, e os números mudam conforme o critério usado. Uma revisão sistemática de 32 estudos, com mais de 13 mil pessoas que fizeram bypass ou sleeve, encontrou reganho de 10% ou mais em 17,6% delas, ou seja, pelo menos 1 em cada 61.

O estudo do bypass acompanhou mais de 1.400 pessoas por cerca de sete anos. Cinco anos depois do peso mais baixo, dois terços tinham recuperado 20% ou mais do peso que haviam perdido3.

A mediana do que voltou subiu de cerca de 10% do peso perdido no primeiro ano depois do nadir para cerca de 27% no quinto ano3.

Esses números assustam menos quando lidos com o outro lado: mesmo com o reganho, a maioria das pessoas segue bem abaixo do peso de antes da cirurgia.

Curva do peso depois do bypass, com o ponto mais baixo por volta de dois anos e a retomada gradual do peso nos anos seguintes

Quando o reganho costuma começar?

O peso mais baixo depois do bypass chega, em média, por volta de dois anos após a cirurgia, variando de um a três anos entre as pessoas3. O ritmo do reganho é maior no primeiro ano depois desse ponto e continua, mais devagar, nos anos seguintes3.

Antes do ponto mais baixo, a balança costuma desacelerar e parar por um tempo. Essa pausa é o platô, e ela é diferente do reganho. O texto sobre platô depois da bariátrica explica a diferença.

Por que o peso volta depois da bariátrica?

Não existe uma causa só. A revisão de 32 estudos agrupou os fatores ligados ao reganho em cinco grupos: anatômicos, genéticos, alimentares, emocionais e o próprio tempo depois da cirurgia1.

Grupo Fatores ligados a mais reganho1 Fatores ligados a menos reganho1
Corpo e cirurgia diâmetro da ligação entre estômago e intestino no bypass; volume do estômago depois do sleeve resposta maior de GLP-1, o hormônio da saciedade, depois de comer
Alimentação doces, porções maiores, vontade intensa de comer consumo de frutas
Emoções e comportamento ansiedade, comer emocional, compulsão, perda de controle ao comer autoestima, apoio social, vontade de mudar a atividade física
Tempo mais anos depois da cirurgia -

Fonte: revisão sistemática de 32 estudos com bypass e sleeve1.

O corpo também reage à perda de peso. Para cada quilo perdido, o apetite sobe cerca de 100 calorias por dia e o gasto de energia cai de 20 a 30 calorias por dia, o que empurra o peso de volta em quase todo tratamento de obesidade4.

Isso ajuda a entender por que o reganho não é sinal de fraqueza: o corpo trabalha a favor do peso antigo.

Os cinco grupos de fatores ligados ao reganho de peso depois da bariátrica

O estômago estica de novo?

É uma das dúvidas mais comuns de quem operou. A revisão encontrou dois fatores anatômicos ligados a mais reganho: o diâmetro da ligação entre o estômago e o intestino, no bypass, e o volume do estômago, no sleeve1. As revisões sobre o tema citam essas mudanças entre as causas que a equipe investiga, ao lado da alimentação e do comportamento2.

Isso não quer dizer que comer além da conta uma vez "estica" o estômago. Quem avalia se houve mudança na anatomia é o cirurgião, com exames, quando o reganho não se explica pelos hábitos.

Comer emocional, compulsão e beliscar

Ansiedade, comer emocional, compulsão alimentar e a sensação de perder o controle ao comer aparecem entre os fatores mais ligados ao reganho1. Do outro lado, autoestima e apoio social se ligaram a menos reganho1.

Por isso o tratamento do reganho quase sempre inclui o cuidado com a saúde mental, com psicólogo ou psiquiatra, e não só a dieta2. Se a fome aparece mais nos momentos de tristeza, cansaço ou ansiedade do que na hora das refeições, esse é um sinal importante para levar à consulta.

Como perceber o reganho cedo

Quanto antes o reganho é percebido, mais opções existem. Um grupo de especialistas em obesidade propôs olhar a velocidade do ganho em relação ao peso mais baixo, a cada 30 dias2:

Ritmo do ganho a cada 30 dias, em relação ao peso mais baixo Classificação proposta2
0,2% a menos de 0,5% reganho leve
0,5% a 1% reganho moderado
mais de 1% reganho rápido

Fonte: proposta de classificação de um serviço de cirurgia bariátrica2. Não é um consenso internacional.

Para uma pessoa com peso mais baixo de 80 kg, por exemplo, ganhar cerca de 400 g a 800 g por mês já entra na faixa moderada. Anote o seu peso mais baixo e se pese uma vez por semana, olhando a tendência do mês.

Faixas de ritmo do reganho de peso a cada 30 dias, com um exemplo para quem tem 80 kg no ponto mais baixo

O que fazer na alimentação

O acompanhamento com nutricionista é a primeira linha de tratamento do reganho2. Os pontos que mais aparecem nos estudos dão o caminho: porções que voltaram a crescer, doces e vontade intensa de comer pesam a favor do reganho, e frutas aparecem do lado oposto1.

Na prática, vale revisar:

  • Proteína primeiro: a diretriz recomenda pelo menos 60 g de proteína por dia, até 1,5 g por quilo de peso ideal, e a sua meta é definida pela sua equipe médica e de nutrição5.
  • Tamanho do prato: pratos e talheres pequenos ajudam a voltar às porções do começo.
  • Doces e bebidas açucaradas: além do peso, eles são gatilho do dumping, o mal-estar que muita gente sente depois de açúcar6.
  • Líquidos longe das refeições: separar a bebida da comida faz parte das orientações de base depois da cirurgia7.

Dietas muito restritivas por conta própria costumam piorar o ciclo, porque o corpo responde a grandes cortes com mais fome e menos gasto4. O ajuste é feito com a nutricionista.

Proteína, treino e massa magra

O músculo é o tecido que mais gasta energia em repouso, e a perda de massa magra acompanha a perda de peso depois da bariátrica8. Proteína suficiente e treino ajudam a preservar o que for possível.

Num acompanhamento de cinco anos depois do bypass, quem fazia mais atividade física moderada a intensa teve menos reganho9. O mesmo estudo mostrou que o treino feito só nos primeiros meses não manteve a força anos depois: o exercício precisa virar hábito, e não fase9.

Na prática, com a Complete Bari

O Complete Bari Whey 3 em 1 tem 25 g de proteína por dose, com whey 100% isolado e colágeno hidrolisado, e pouco açúcar (até 0,2 g por dose). Pode entrar num lanche quando a comida não alcança a proteína do dia.

Para quem treina força, a Creatina Complete Bari é creatina monoidratada, usada junto com o treino, de 3 a 5 g por dia.

Importante: o whey contém lactose, em baixo teor, e derivado de soja. Como tem cálcio, tome em horário diferente do seu polivitamínico com ferro10.

O que eles não fazem sozinhos: nenhum suplemento evita ou trata o reganho. Eles ajudam a completar a proteína e a apoiar o treino, junto com a alimentação e o acompanhamento.

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Remédios e canetas ajudam no reganho?

Quando a mudança de hábitos não basta, o médico pode considerar remédios para obesidade, que entram como parte do tratamento do reganho2. Os medicamentos da família GLP-1 são os mais estudados nesse cenário.

Num ensaio clínico com 70 pessoas que tinham emagrecido pouco depois da cirurgia, a liraglutida, junto com dieta, levou a uma perda média de cerca de 9% do peso em 24 semanas, contra menos de 1% com placebo11. Os efeitos gastrointestinais foram mais frequentes com o remédio11.

Uma revisão de 16 estudos com a mesma liraglutida também encontrou perda de peso em quem teve reganho12.

Esses remédios são indicados e acompanhados pelo médico, e não substituem a alimentação e a atividade física. Se você usa ou vai usar uma caneta, o guia de suplementos para quem usa Mounjaro mostra como cuidar da proteína e das vitaminas durante o tratamento.

Quando se fala em nova cirurgia?

Quando há mudança na anatomia ou quando o reganho é importante e não responde aos outros tratamentos, a equipe pode discutir uma cirurgia revisional2. É uma decisão individual, tomada pelo cirurgião depois de exames, e não costuma ser o primeiro passo.

Álcool e reganho

Bebida alcoólica tem calorias e solta o controle sobre o que se come. Ela também está entre os gatilhos do dumping6.

Depois do bypass, ela também age mais rápido: num estudo com mulheres operadas, a mesma dose levou a um pico de álcool no sangue quase duas vezes maior, alcançado em 15 minutos, contra cerca de 36 minutos em quem não tinha operado13. O texto sobre álcool depois da bariátrica traz os cuidados.

Quando procurar sua equipe

  • O peso subiu por dois ou três meses seguidos a partir do ponto mais baixo.
  • A fome voltou forte, ou aparecem episódios de comer sem controle.
  • Você voltou a sentir pouca restrição, comendo porções grandes sem desconforto.
  • A balança sobe junto com tristeza, ansiedade ou uso maior de álcool.
  • Você está pensando em fazer uma dieta muito restritiva por conta própria.

Para levar para o dia a dia

  • Anote o seu peso mais baixo e se pese uma vez por semana, olhando o mês.
  • Monte o prato pela proteína e use pratos pequenos.
  • Faça atividade física que caiba na sua vida pelos próximos anos.
  • Mantenha as consultas de acompanhamento, mesmo quando tudo vai bem.

A cirurgia é uma ferramenta, e o reganho é uma fase que tem tratamento. Quanto antes você conversar com a sua equipe, mais leve tende a ser o ajuste.

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Referências

  1. Athanasiadis DI, et al. Factors associated with weight regain post-bariatric surgery: a systematic review. Surg Endosc. 2021;35(8):4069-4084. https://doi.org/10.1007/s00464-021-08329-w
  2. Istfan NW, et al. Approach to the Patient: Management of the Post-Bariatric Surgery Patient With Weight Regain. J Clin Endocrinol Metab. 2021;106(1):251-263. https://doi.org/10.1210/clinem/dgaa702
  3. King WC, et al. Comparison of the Performance of Common Measures of Weight Regain After Bariatric Surgery for Association With Clinical Outcomes. JAMA. 2018;320(15):1560-1569. https://doi.org/10.1001/jama.2018.14433
  4. Hall KD, Kahan S. Maintenance of Lost Weight and Long-Term Management of Obesity. Med Clin North Am. 2018;102(1):183-197. https://doi.org/10.1016/j.mcna.2017.08.012
  5. Mechanick JI, et al. Clinical practice guidelines for the perioperative nutrition, metabolic, and nonsurgical support of patients undergoing bariatric procedures, 2019 update. Surg Obes Relat Dis. 2020;16(2):175-247. https://doi.org/10.1016/j.soard.2019.10.025
  6. Scarpellini E, et al. International consensus on the diagnosis and management of dumping syndrome. Nat Rev Endocrinol. 2020;16(8):448-466. https://doi.org/10.1038/s41574-020-0357-5
  7. Sherf-Dagan S, et al. Nutritional Recommendations for Adult Bariatric Surgery Patients: Clinical Practice. Adv Nutr. 2017;8(2):382-394. https://doi.org/10.3945/an.116.014258
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  9. Bellicha A, et al. Effect of exercise training after bariatric surgery: A 5-year follow-up study of a randomized controlled trial. PLoS One. 2022;17(7):e0271561. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0271561
  10. Parrott J, et al. ASMBS Integrated Health Nutritional Guidelines for the Surgical Weight Loss Patient, 2016 Update: Micronutrients. Surg Obes Relat Dis. 2017;13(5):727-741. https://doi.org/10.1016/j.soard.2016.12.018
  11. Mok J, et al. Safety and Efficacy of Liraglutide, 3.0 mg, Once Daily vs Placebo in Patients With Poor Weight Loss Following Metabolic Surgery: The BARI-OPTIMISE Randomized Clinical Trial. JAMA Surg. 2023;158(10):1003-1011. https://doi.org/10.1001/jamasurg.2023.2930
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Conteúdo educativo. Não substitui a orientação da sua equipe médica e de nutrição.

Perguntas frequentes

É normal engordar depois da bariátrica?
Recuperar parte do peso é comum. Numa revisão de 32 estudos, cerca de 1 em cada 6 pessoas recuperou 10% ou mais do peso, e o ritmo é maior no primeiro ano depois do peso mais baixo.
O estômago estica de novo depois da bariátrica?
Mudanças na anatomia, como o aumento da ligação entre estômago e intestino no bypass ou do volume do estômago no sleeve, estão entre os fatores ligados ao reganho. Quem avalia é o cirurgião, com exames.
Qual a taxa de reganho de peso depois da bariátrica?
Depende do critério. Uma revisão encontrou reganho de 10% ou mais em 17,6% das pessoas; no estudo do bypass, dois terços recuperaram 20% ou mais do peso perdido cinco anos depois do ponto mais baixo.
Mounjaro ou outras canetas ajudam no reganho depois da bariátrica?
Os remédios da família GLP-1 são os mais estudados para o reganho. A liraglutida levou a perda de peso em ensaio clínico e em revisão de estudos. A indicação é sempre médica.
Dá para fazer outra bariátrica?
Em casos selecionados, a equipe pode discutir uma cirurgia revisional, depois de avaliar a anatomia e as outras opções de tratamento. Converse com sua equipe médica e de nutrição.
Qual a melhor dieta para o reganho de peso depois da bariátrica?
Não existe uma dieta única. A base é proteína em todas as refeições, porções pequenas, pouco doce e líquidos longe das refeições, ajustada pela sua nutricionista.
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