Decidir fazer a cirurgia bariátrica é um passo marcante no cuidado com a saúde. Logo depois da indicação, surge uma das perguntas mais frequentes no consultório: qual técnica escolher?
O sleeve (gastrectomia vertical) e o bypass gástrico em Y de Roux são as duas cirurgias que o Conselho Federal de Medicina classifica como altamente recomendadas, por terem mais estudos de longo prazo sobre segurança e resultado3.
Veja a seguir o que os principais ensaios clínicos mostram sobre perda de peso, doenças associadas, refluxo, hormônios e vitaminas em cada uma delas.
Como funciona cada cirurgia?
A diferença está no que o cirurgião muda no caminho da comida4:
- Sleeve (gastrectomia vertical): retira-se boa parte do estômago, ao longo da sua curvatura maior, e o que fica tem formato de tubo, com 150 a 200 ml. O intestino não é desviado.
- Bypass gástrico em Y de Roux: cria-se uma pequena bolsa no estômago, que é ligada diretamente a uma parte do intestino. A comida deixa de passar pelo restante do estômago e pelo começo do intestino.
As duas mudam também os hormônios do apetite. Depois do sleeve, o hormônio da fome (grelina) cai e os hormônios da saciedade (GLP-1 e PYY) sobem depois das refeições5.
Depois do bypass, o GLP-1 e o PYY sobem depois das refeições, enquanto a grelina cai nas primeiras semanas e volta perto do nível de antes ao longo do primeiro ano6.

Qual cirurgia emagrece mais a curto e longo prazo?
Os dois principais ensaios clínicos que sortearam pacientes para uma ou outra técnica acompanharam as pessoas por 5 e 10 anos:
| O que foi medido | Sleeve | Bypass |
|---|---|---|
| Perda do excesso de IMC em 5 anos (SM-BOSS, 217 pessoas)1 | 61,1% | 68,3% (diferença não significativa) |
| Perda mediana do excesso de peso em 10 anos (SLEEVEPASS, 240 pessoas)2 | 43,5% | 50,7% |
| Remissão do diabetes tipo 2 em 10 anos2 | 26% | 33% (diferença não significativa) |
| Remissão da pressão alta em 10 anos2 | 8% | 24% |
| Esofagite em 10 anos2 | 31% | 7% |
| Nova cirurgia em 10 anos2 | 15,7% | 18,5% (diferença não significativa) |
Fontes: ensaio clínico SM-BOSS de 5 anos1 e ensaio clínico SLEEVEPASS de 10 anos2.
Os autores do SLEEVEPASS concluíram que as duas técnicas levaram a perda de peso boa e duradoura, com vantagem para o bypass em 10 anos2. Uma revisão de 2020 resume assim: efeitos parecidos sobre peso, diabetes e segurança até pelo menos 5 anos, com sinais de menos reoperações no sleeve e de resultado mais durável no bypass7.
Qual é o impacto de cada técnica no refluxo?
O refluxo é um dos pontos que mais pesam na escolha. No estudo suíço, o refluxo piorou ou apareceu em 31,8% de quem fez sleeve, contra 10,7% de quem fez bypass. Entre quem já tinha refluxo antes, ele sumiu em 60,4% depois do bypass e em 25% depois do sleeve1.
No estudo finlandês, a esofagite (inflamação do esôfago causada pelo refluxo) apareceu em 31% de quem fez sleeve e em 7% de quem fez bypass, 10 anos depois2. Houve casos de sleeve convertido em bypass por refluxo grave1.
Como fica a absorção de vitaminas no sleeve e no bypass?
As duas cirurgias pedem multivitamínico todos os dias, para a vida toda, com exames periódicos8. Algumas doses recomendadas mudam conforme a técnica: a diretriz americana indica de 8 a 22 mg de zinco e 2 mg de cobre depois do bypass, contra 8 a 11 mg de zinco e 1 mg de cobre depois do sleeve8.
No bypass, o duodeno, onde boa parte do cálcio é absorvida, fica fora do caminho da comida9. Ferro, B12, vitamina D e cálcio pedem atenção nas duas técnicas, e as doses são ajustadas pelos exames8.
O uso diário de um polivitamínico é a base para os dois grupos. Nos primeiros meses, a volta à comida segue as fases da dieta pós-bariátrica nas duas técnicas.
Na prática, com a Complete Bari
O Complete Bari Multi reúne mais de 20 vitaminas e minerais em 3 cápsulas de gelatina por dia, uma depois de cada refeição principal. Folato e B12 estão nas formas ativas (metilfolato e metilcobalamina), e ferro, zinco, magnésio, cobre e manganês, na forma de bisglicinato.
O que ele não cobre sozinho: o cálcio do dia, que depende da alimentação e de um suplemento à parte; a B12, que costuma precisar de complemento; e os ajustes de vitamina D e ferro que os seus exames pedirem.
O que dizem os critérios oficiais do CFM para indicação?
A Resolução CFM nº 2.429/2025 define quem pode ser operado3:
- IMC a partir de 40: com ou sem outras doenças;
- IMC de 35 a 39,9: com pelo menos uma doença agravada pela obesidade que melhore com a perda de peso;
- IMC de 30 a 34,9: em situações definidas, como diabetes tipo 2, apneia do sono grave, gordura no fígado com fibrose e artrose grave.
O texto IMC para bariátrica mostra como calcular o seu IMC e o que muda no SUS e nos planos.
Como o cirurgião decide qual técnica é a melhor para você?
Pelo CFM, a escolha da técnica é feita com base nas necessidades de cada pessoa e compartilhada entre a equipe cirúrgica, a equipe de vários profissionais e o paciente3. Alguns pontos que entram na conversa:
- Refluxo: os estudos mostram mais refluxo e esofagite depois do sleeve e mais remissão do refluxo depois do bypass2, 1;
- Pressão alta e diabetes: em 10 anos, a remissão da pressão alta foi maior com o bypass, e a do diabetes não teve diferença significativa2;
- Vitaminas e minerais: o bypass pede doses maiores de alguns minerais e atenção ao cálcio8, 9;
- Disposição para o acompanhamento: as duas técnicas exigem consultas e exames para a vida toda3.
O guia sobre cirurgia bariátrica mostra todas as técnicas e como é a vida depois.
Quando procurar sua equipe
- Azia ou queimação frequente depois da cirurgia.
- Dificuldade para engolir ou vômitos repetidos.
- Cansaço, formigamento ou queda de cabelo forte.
- Exames atrasados há mais de um ano.
Para levar para o dia a dia
- Conte à equipe, antes da cirurgia, se você tem azia ou refluxo.
- Leve suas dúvidas por escrito à consulta de decisão.
- Mantenha o multivitamínico e os exames, qualquer que seja a técnica.
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Referências
- Peterli R, et al. Effect of Laparoscopic Sleeve Gastrectomy vs Laparoscopic Roux-en-Y Gastric Bypass on Weight Loss in Patients With Morbid Obesity: The SM-BOSS Randomized Clinical Trial. JAMA. 2018;319(3):255-265. https://doi.org/10.1001/jama.2018.0098
- Salminen P, et al. Effect of Laparoscopic Sleeve Gastrectomy vs Roux-en-Y Gastric Bypass on Weight Loss, Comorbidities, and Reflux at 10 Years in Adult Patients With Obesity: The SLEEVEPASS Randomized Clinical Trial. JAMA Surg. 2022;157(8):656-666. https://doi.org/10.1001/jamasurg.2022.2229
- Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.429, de 25 de abril de 2025. https://sistemas.cfm.org.br/normas/arquivos/resolucoes/BR/2025/2429_2025.pdf
- Ministério da Saúde. Portaria nº 425, de 19 de março de 2013, Anexos I e III. https://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2013/prt0425_19_03_2013.html
- McCarty TR, Jirapinyo P, Thompson CC. Effect of Sleeve Gastrectomy on Ghrelin, GLP-1, PYY, and GIP Gut Hormones: A Systematic Review and Meta-analysis. Ann Surg. 2020. https://doi.org/10.1097/SLA.0000000000003614
- Simoneau M, et al. Gut peptides before and following Roux-En-Y gastric bypass: A systematic review and meta-analysis. Obes Rev. 2024. https://doi.org/10.1111/obr.13702
- Arterburn DE, et al. Benefits and Risks of Bariatric Surgery in Adults: A Review. JAMA. 2020;324(9):879-887. https://doi.org/10.1001/jama.2020.12567
- Parrott J, et al. ASMBS Integrated Health Nutritional Guidelines for the Surgical Weight Loss Patient, 2016 Update: Micronutrients. Surg Obes Relat Dis. 2017;13(5):727-741. https://doi.org/10.1016/j.soard.2016.12.018
- Tondapu P, et al. Comparison of the Absorption of Calcium Carbonate and Calcium Citrate after Roux-en-Y Gastric Bypass. Obes Surg. 2009;19(9):1256-1261. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4469176/
- Sherf-Dagan S, et al. Nutritional Recommendations for Adult Bariatric Surgery Patients: Clinical Practice. Adv Nutr. 2017;8(2):382-394. https://doi.org/10.3945/an.116.014258
- Scarpellini E, et al. International consensus on the diagnosis and management of dumping syndrome. Nat Rev Endocrinol. 2020;16(8):448-466. https://doi.org/10.1038/s41574-020-0357-5
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