Depois da cirurgia bariátrica, quase todo mundo ouve a mesma orientação da equipe: o polivitamínico vai fazer parte da rotina para a vida toda1, 2.
Na hora de comprar, aparecem muitas opções: polivitamínicos de farmácia, fórmulas manipuladas, cápsulas e versões mastigáveis.
A dúvida é natural: um suplemento comum de drogaria serve, ou é preciso um multivitamínico específico para quem fez bariátrica?
Este guia reúne o que dizem as diretrizes para você ler um rótulo, entender quais nutrientes não podem faltar e conversar melhor com a sua equipe.
Por que um polivitamínico comum costuma não bastar para quem operou?
A cirurgia muda a quantidade de comida e a forma como o corpo absorve alguns nutrientes.
A diretriz britânica (BOMSS) explica que a falta de ferro é frequente depois da cirurgia por três motivos: a pessoa come menos ferro, o intestino absorve menos e, em algumas mulheres, há a menstruação2.
A B12 também sofre, porque a absorção dela precisa do ácido do estômago e de uma substância chamada fator intrínseco, que diminuem depois do sleeve e do bypass2.
Um polivitamínico comum, na dose de um por dia, costuma ficar abaixo das faixas indicadas para quem operou. Por isso, uma revisão de prática clínica fala em duas doses diárias de um polivitamínico de adulto com ferro, ácido fólico, zinco, cobre, selênio e tiamina3, e há fórmulas pensadas desde o início para as doses da cirurgia.
O ponto não é o nome "bariátrico" na embalagem. É se o rótulo chega às doses que a diretriz pede para o seu caso.
O que dizem as diretrizes da ASMBS, da BOMSS e o Guia Brasileiro?
As equipes se apoiam principalmente em três referências:
- ASMBS (Sociedade Americana de Cirurgia Metabólica e Bariátrica): a diretriz de micronutrientes mais detalhada, com faixas diárias para cada vitamina e mineral1;
- BOMSS (Sociedade Britânica de Cirurgia Metabólica e da Obesidade): recomenda um polivitamínico e mineral completo, com tiamina, ferro, selênio, zinco e cobre, todos os dias, depois de qualquer cirurgia bariátrica2;
- Guia Brasileiro de Nutrição em Cirurgia Bariátrica e Metabólica (2023): reúne recomendações nacionais de nutrição e suplementação antes e depois da cirurgia4.
Todas concordam em um ponto: a suplementação é para a vida toda, e os exames mostram o que precisa de ajuste1, 2.

Quais nutrientes e doses não podem faltar?
Ao conferir a tabela de um suplemento, compare com as faixas diárias da ASMBS para quem fez sleeve ou bypass1:
| Nutriente | Faixa diária da ASMBS (sleeve e bypass) |
|---|---|
| Tiamina (vitamina B1) | Pelo menos 12 mg, de preferência 50 mg |
| Vitamina B12 | 350 a 500 µg por via oral, ou injeção mensal |
| Folato (vitamina B9) | 400 a 800 µg; 800 a 1.000 µg em mulheres em idade fértil |
| Ferro | Pelo menos 18 mg no baixo risco; 45 a 60 mg em mulheres que menstruam e depois do bypass ou do sleeve |
| Zinco | 8 a 11 mg (sleeve) e 8 a 22 mg (bypass) |
| Cobre | 1 mg (sleeve) e 2 mg (bypass), na proporção de 8 a 15 mg de zinco para 1 mg de cobre |
| Vitamina D3 | 3.000 UI, ajustando até o exame passar de 30 ng/mL |
| Vitaminas A, E e K | A: 5.000 a 10.000 UI; E: 15 mg; K: 90 a 120 µg |
| Cálcio | 1.200 a 1.500 mg por dia, somando comida e suplemento, em doses divididas |
Fonte: diretriz de micronutrientes da ASMBS (Parrott, 2017)1. As doses do seu caso são definidas pela sua equipe.
Repare que nenhum polivitamínico sozinho costuma cobrir tudo. O cálcio, por exemplo, não cabe em poucas cápsulas, e a B12 muitas vezes vem à parte.
Vitaminas em forma ativa fazem diferença?
No caso do folato, há uma diferença real. O ácido fólico comum precisa ser convertido pelo corpo. O metilfolato já é a forma ativa e não depende da enzima MTHFR, que funciona menos em pessoas com certas variações genéticas5. Veja mais no artigo sobre vitaminas ativas e minerais quelados.
Para as outras vitaminas, o que mais pesa é a dose. Na B12, por exemplo, a diretriz pede de 350 a 500 µg por dia por via oral1, bem acima do que um polivitamínico comum traz.
Atenção a um detalhe: o excesso de folato pode esconder a falta de B12 nos exames, e por isso a diretriz não recomenda passar de 1 mg de folato por dia1. Mais um motivo para não somar suplementos por conta própria.
Os minerais quelados (bisglicinatos) fazem diferença?
Os minerais quelados vêm ligados ao aminoácido glicina. O mais estudado é o ferro bisglicinato.
O que os estudos mostram:
- Em gestantes: numa meta-análise de 17 ensaios clínicos, o ferro bisglicinato levou a hemoglobina um pouco mais alta e teve cerca de 64% menos efeitos no estômago e no intestino do que outros sais de ferro6;
- Em crianças: não houve diferença na hemoglobina nem na ferritina6;
- Em quem fez bariátrica: não há estudos. Os autores pedem mais pesquisas em outros grupos6.
Os sais de ferro comuns podem irritar o estômago e causar azia, enjoo, prisão de ventre e diarreia, o que faz muita gente parar de tomar6. Por isso, a tolerância é um bom motivo para considerar o quelado.
Mas vale saber: a diretriz britânica orienta o sulfato, o fumarato ou o gluconato ferroso quando é preciso ferro extra2. O quelado não é obrigatório. O que importa é que você consiga tomar todo dia e que a ferritina responda.
Mastigável ou cápsula: qual formato escolher?
Uma revisão de prática clínica orienta começar a suplementação na alta do hospital, em geral de 2 a 4 dias depois da cirurgia, e usar comprimidos mastigáveis ou para chupar nos primeiros 3 a 6 meses, por causa das mudanças na absorção. Depois disso, podem entrar os suplementos para engolir3.
Na prática:
- Primeiros meses: siga o formato que a sua equipe indicar. Muitas equipes começam pelo mastigável;
- Depois da liberação: a escolha entre mastigável e cápsula passa a ser de conforto. O formato que você consegue tomar todo dia é o melhor para você.
Se for usar um mastigável, confira se ele é sem açúcar: açúcares de absorção rápida estão entre os gatilhos da síndrome de dumping7. O artigo sobre o polivitamínico mastigável traz mais detalhes.
Como ler o rótulo da vitamina sem cair em pegadinhas?
Leve estes quatro pontos para a prateleira:
- Doses por porção: compare a tabela com as faixas da diretriz, principalmente ferro, B12, tiamina, folato, zinco e cobre1. Veja também quantas cápsulas ou comprimidos formam a porção;
- Zinco e cobre juntos: zinco em excesso sem cobre pode levar à falta de cobre, que causa anemia, queda dos glóbulos brancos e alterações nos nervos e músculos2. A proporção indicada é de 8 a 15 mg de zinco para cada 1 mg de cobre1, 2;
- Forma dos nutrientes: procure "metilfolato" no folato5 e veja a forma do ferro. Lembre que nenhum produto precisa ter tudo quelado ou ativo para funcionar;
- Sem açúcar: principalmente nos mastigáveis, prefira fórmulas sem sacarose e sem xarope de glicose7.
Quais exames mostram se a suplementação está funcionando?
O rótulo é só o começo. Quem confirma se a vitamina está dando conta são os exames1, 2.
A ASMBS orienta exames a cada 3 a 6 meses no primeiro ano e depois uma vez por ano1. A BOMSS sugere 3, 6 e 12 meses no primeiro ano e, depois, pelo menos uma vez por ano, para a vida toda2.
Os principais exames são2:
- Hemograma e ferritina: mostram a anemia e os estoques de ferro;
- Vitamina B12 e folato;
- Vitamina D (25-hidroxivitamina D), cálcio e PTH: ajudam a cuidar dos ossos. A meta da vitamina D é passar de 30 ng/mL1;
- Zinco e cobre: o zinco deve ser medido pelo menos uma vez por ano depois do sleeve e do bypass, e os dois juntos quando há reposição2;
- Funções do rim e do fígado.
Com os resultados, a nutricionista e o médico ajustam as doses e indicam o que complementar.
O que costuma vir além do polivitamínico?
Mesmo com um bom polivitamínico, alguns nutrientes costumam vir à parte. Os mais comuns são:
| Suplemento | Por que costuma vir à parte |
|---|---|
| Cálcio | A meta é de 1.200 a 1.500 mg por dia. O carbonato vai junto das refeições; o citrato pode ser tomado com ou sem comida1 |
| Vitamina B12 | A dose oral da diretriz é de 350 a 500 µg por dia; também há opções sublinguais e injetáveis1, 3 |
| Vitamina D | A dose de manutenção é de 3.000 UI, e a reposição vai de 3.000 a 6.000 UI por dia, conforme o exame1 |
| Ferro extra | Depois do sleeve e do bypass, a BOMSS recomenda ferro além do polivitamínico, com dose ajustada pelos exames2 |
| Tiamina extra | Quem tem vômitos por muito tempo ou dificuldade para engolir corre risco de falta de tiamina e deve procurar a equipe logo2 |
Quem define o que entra, e em que dose, é a sua equipe, a partir dos exames.
Como organizar a suplementação no dia a dia?
Duas regras ajudam muito:
- Ferro e cálcio em horários diferentes: um atrapalha a absorção do outro. A BOMSS orienta de 1 a 2 horas de intervalo2, e a revisão de prática clínica fala em pelo menos 2 horas entre o cálcio e o polivitamínico com ferro3. Divida o cálcio em doses de até 600 mg3;
- Vitamina C ajuda o ferro: tomar o ferro com frutas cítricas ou vitamina C pode ajudar a absorção2.
Também vale montar uma rotina fixa, como tomar o polivitamínico depois das refeições, para não esquecer.
Na prática, com a Complete Bari
O Complete Bari Multi reúne mais de 20 vitaminas e minerais em 3 cápsulas de gelatina por dia, uma depois de cada refeição principal. Ferro, zinco, cobre, magnésio e manganês estão na forma de bisglicinato; o folato e a B12, nas formas ativas (metilfolato e metilcobalamina). Não existe versão mastigável.
O que ele não cobre sozinho: o cálcio do dia, que depende da alimentação e de um suplemento à parte; a B12, que costuma precisar de complemento; e os ajustes de vitamina D e ferro que os seus exames pedirem.
Para levar para o dia a dia
- A melhor vitamina é a que chega às doses da diretriz para a sua cirurgia.
- Nos primeiros meses, siga o formato que a equipe indicar; muitas começam pelo mastigável.
- Metilfolato e ferro quelado são vantagens, não exigências.
- Ferro e cálcio em horários diferentes.
- Os exames dizem o que complementar.
Continue lendo
- Polivitamínico bariátrico mastigável
- Suplemento de ferro pós-bariátrica
- Vitaminas ativas e minerais quelados
Referências
- Parrott J, et al. American Society for Metabolic and Bariatric Surgery Integrated Health Nutritional Guidelines for the Surgical Weight Loss Patient — 2016 Update: Micronutrients. Surg Obes Relat Dis. 2017;13(5):727-741. https://doi.org/10.1016/j.soard.2016.12.018
- O'Kane M, et al. British Obesity and Metabolic Surgery Society Guidelines on perioperative and postoperative biochemical monitoring and micronutrient replacement for patients undergoing bariatric surgery—2020 update. Obes Rev. 2020;21(11):e13087. https://doi.org/10.1111/obr.13087
- Sherf-Dagan S, et al. Nutritional Recommendations for Adult Bariatric Surgery Patients: Clinical Practice. Adv Nutr. 2017;8(2):382-394. https://doi.org/10.3945/an.116.014258
- Pereira SE, et al. Brazilian guide to nutrition in bariatric and metabolic surgery. Langenbecks Arch Surg. 2023;408(1):143. https://doi.org/10.1007/s00423-023-02870-9
- Scaglione F, Panzavolta G. Folate, folic acid and 5-methyltetrahydrofolate are not the same thing. Xenobiotica. 2014;44(5):480-488. https://doi.org/10.3109/00498254.2013.845705
- Fischer JAJ, et al. The effects of oral ferrous bisglycinate supplementation on hemoglobin and ferritin concentrations in adults and children: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Nutr Rev. 2023;81(8):904-920. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10331582
- Scarpellini E, et al. International consensus on the diagnosis and management of dumping syndrome. Nat Rev Endocrinol. 2020;16(8):448-466. https://doi.org/10.1038/s41574-020-0357-5
Conteúdo educativo. Não substitui a orientação da sua equipe médica e de nutrição.


